quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Notre Musique (2004) Avaliação global: 4/10


Sinopse:

A história bélica humana em três capítulos: o Inferno, o Purgatório e o Paraíso. No primeiro somos confrontados com imagens reais de diversas situações de violência militar, com especial ênfase no holocausto. O Purgatório passa-se em Sarajevo actual, numa sequência ininterrupta de dissertações intelectuais acerca da guerra, do ódio racista e da destruição humana. Finalmente, no Paraíso somos brindados com imagens suaves de uma felicidade instável e muito restritiva do post mortem.

Crítica:

Jean-Luc Godard entra a matar num filme inicialmente agressivo e chocante que nos ofende. Este excessivo prolongamento das imagens de guerra inicias é tão notório que dá a ideia de que o realizador brincou com o poder visual do cinema como uma criança brinca com uma arma de fogo; e neste caso explodiu-lhe nas mãos.
A parte do purgatório é rica em frases filosóficas de significado desfocado até à sua análise demorada. O ritmo acelerado em que somos brindados com as ditas não nos permite dissecar totalmente o seu sentido, ficando no ar um clima frio de compreensão limitada. E eu detesto sentir-me estúpido. São pensamentos para serem lidos com tempo, não despejados em contra-relógio no ecrã de cinema.
Foi o próprio realizador que disse "There is no point in having sharp images when you've fuzzy ideas.". Pois parece-me ter sido precisamente esse o seu erro...

Linhas Gerais:

Mais um filme alternativo, intelectual e um pouco presunçoso. Tem ideias muito interessantes acerca dos móbeis humanos, da nossa essência, e aborda interessantemente o conflito palestiniano.
Não deixa de ser aborrecido e confuso.

Filme para:

Pseudo-intelectuais de esquerda.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Les Temps qui Changent (2004) Avaliação global: 5/10



Sinopse:

Um construtor civil francês viaja para Marrocos na esperança de reconquistar aquele que considera o amor da sua vida, Céline. O grande problema está no actual casamento da mesma, aparentemente estável e com um ambiente calmo de confiança mútua.

Crítica:

O cinema francês tem um estilo tão sublime que só resulta quando é desenvolvido ao melhor nível. É um estilo exigente e perigoso em que os argumentos óptimos se tornam filmes divinais, mas os argumentos médios se tornam inconsistentes e inaceitáveis. Neste caso fui arrebatado pela desilusão...
Este filme envolve uma história cor-de-rosa banalíssima de amores profundos que só serve para reavivar a nostalgia dos grandes clássicos, falhando no objectivo primário de comover. Já ninguém suporta romancezinhos de algibeira.
Provavelmente para disfarçar a escassa força do argumento central, a história foi enfeitada com pequenos dramas relacionais demasiado batidos para serem credíveis ou interessantes, como a bissexualidade do filho de Céline. O filme acabou por se degenerar numa malha forçada de clichés por demais irritantes.
Como golpe de misericórdia nas minhas expectativas, a qualidade da representação da GILF Catherine Deneuve deixou muito a desejar... Os seus olhos não são o mesmo poço de sentimentos de outrora. Quanto a Dépardieu não tenho nada a dizer: é um dos meus "intocáveis".

Linhas Gerais:

Trata-se de um romance fácil, um filme demasiado ligeiro para ter interesse. Em certos pontos torna-se tão previsível que chega a ser irritante.

Filme para:

Quem vive no passado. E mesmo assim vão ficar desiludidos...

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Blade Trinity (2004) Avaliação global: 5/10


Sinopse:

Os vampiros acordam o patriarca, o verdadeiro Conde Drácula, e tentam novamente pôr em marcha os seus planos de domínio da raça humana. Esta ameaça poderosa junta-se à eterna caçada do Daywalker...

Crítica:

Respondo já: claro que é uma banhada. Não tem qualquer exploração psicológica das personagens, o argumento é simples e de compreensão imediata e o interesse do filme reside exclusivamente na violência gratuita e nos efeitos especiais. Quererá isso dizer que se trata de um filme mau? A meu entender não.
Dentro do género, esta produção prima pela escuridão do ambiente e pelo estilo inconfundível da cabeça tatuada de Wesley Snipes. As sequências de acção estão fluidas e emocionantes, o realismo das lutas foi consideravelmente melhorado pela presença do Triple H (estrela de wrestling) e a banda sonora é rude e poderosa. Revelou-se um filme relaxante e agradável.
De realçar também o cuidado relativo às gaffes, tão comuns neste tipo de filme. Só reparei numa situação caricata, mais para o fim do filme, que foi a repetição do mesmo murro por parte da atraente Jessica Biel. Pena.

Linhas Gerais:

Um filme simples, despretensioso, rápido e excitante. Muito bom dentro do género, seguindo a tradição invejável do herói vampiro.

Filme para:

Todos os que têm um fraquinho por filmes de acção.
Ou para quem, como eu, quer passar umas horitas distraído a ver um filme fácil e discreto...

Kinsey (2004) Avaliação global: 6/10


Sinopse:

A vida do Dr. Alfred Kinsey, um biólogo temerário que dissecou a vida sexual dos norte-americanos num relatório muito controverso para os castos anos 40. Um olhar objectivo sobre a moral, sobre as suas origens e os seus fundamentos, que veio abrir caminho para uma maior abertura de espírito na sociedade da época.

Crítica:

Bill Condon regressa ao grande ecrã com uma história complexa e pesada, aligeirada por toques um pouco forçados de comédia que apesar de nos animarem destoam na textura geral da narração.
Não é um filme pequeno (um pouco mais de duas horas), mas Condon não conseguiu aproveitar os minutos para mergulhar um pouco mais nas ricas personagens secundárias, que poderiam dar muito mais ao filme do que esta insistência exagerada no papel central, desempenhado por Liam Neeson. Ficou um filme muito focado, de limites demasiado apertados para conter uma potencial explosão de riqueza psicológica que certamente o levaria para outro nível. Fica uma história com pano para mangas, que nos faz pensar...
A interpretação de Liam Neeson está a um nível bastante aceitável, não se tratando apesar de tudo de um papel suficientemente complexo para o mostrar na totalidade. Laura Linney, por outro lado, porta-se lindamente e instaura algumas dúvidas quando ao resultado dos Óscares de 2004, roubando algum do favoritismo que Natalie Portman tinha alcançado na corrida para a estatueta de melhor actriz secundária.

Linhas Gerais:

Um filme agradável, com realização competente e representações muito acima da média. Está demasiado centrado na personagem principal para permitir uma visão global dos acontecimentos, e perde um pouco com isso.

Filme para:

Toda a gente com um mínimo de inteligência e abertura de espírito.
Tenham o cuidado de não levar a mensagem demasiado a sério: tal traria danos sentimentais irreparáveis.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

The Aviator (2004) Avaliação global: 8/10



Sinopse:

Howard Hughes é um milionário excêntrico com um amor repartido pela aviação e pelo cinema. Inovador em tudo o que faz, leva uma vida fora do comum, temperada por um toque de insanidade que o leva ao progresso revolucionário em todas as suas realizações.

Crítica:

O perfeito blockbuster, apimentado por um aroma quase grotesco a filme de prémios. No entanto, ao contrário de filmes como Titanic ou Chicago, esta obra consegue ser realizada com qualidade indiscutível e uma profundidade psicológica invejável, especialmente tendo em conta o seu público-alvo.
Martin Scorcese reafirma a sua posição relativa a grandes produções com Leonardo DiCaprio, depois de ter falhado redondamente com o grandioso Gangs of New York (não ganhou nenhum dos dez Óscares para os quais foi nomeado). Desta feita está nomeado para onze Óscares da academia, sendo que me parece ser filme para arrecadar entre quatro e sete estatuetas douradas (tem o azar tremendo de perder o Óscar de melhor actor para o notável Jamie Foxx e o de melhor actriz secundária para Natalie Portman).
DiCaprio mostra novamente toda a qualidade da sua representação (está longe de ser só uma carinha bonita) e faz um papelão assustador que muito dá a ganhar ao filme.
Apesar de ser um filme grande (quase três horas), não me parece suficientemente extenso para contar esta biografia complexa de forma coerente. Talvez fosse filme para uma trilogia, ou uma série de qualidade da HBO...

Linhas Gerais:

Martin Scorcese reafirma-se, Leonardo di Caprio brilha e o espírito arrojado de Howard Hughes salta do ecrã e aterra-nos no colo, levando-nos imediatamente a querer elevar a nossa vida para um novo patamar.
É daqueles filmes indubitavelmente bons. Não há como o pôr de outra forma...

Filme para:

Toda a gente. Excepto, claro, os doentes das costas que não conseguem manter a mesma posição por mais de hora e meia.
Um dos raros filmes em que ser para toda a gente não significa que seja mau...

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Un long Dimanche de Fiançailles (2004) Avaliação global: 5/10


Sinopse:

Uma tenra camponesa francesa tenta encontrar o seu noivo, que se pensa ter morrido na primeira guerra mundial. Na reconstituição de tudo o que se passou em torno do seu desaparecimento, Mathilde une pequenos pedaços de memórias dispersas que lentamente constroem o puzzle necessário para compreender o sucedido.

Crítica:

É impossível ir ver este filme sem levar na cabeça uma forte lembrança do maravilhoso "Le fabuleux destin d' Amélie Poulain", já que recupera a mítica relação simbiótica entre Jean-Pierre Jeunet e a ternurenta Audrey Tautou. Dentro deste contexto é inevitável sofrer uma tão pesada desilusão que se volta para casa com um sabor amargo na boca...
Neste filme de pouco mais de duas horas conta-se uma história tão simples, tão idiota, que o aborrecimento se apodera de nós ao ponto de nos levar a olhar repetidas vezes para o relógio, na esperança de que o ritmo acelere. Nem mesmo os efeitos visuais (que quase parecem destoar numa produção francesa) nos animam o suficiente para pelo menos deixarmos de desejar que aquilo acabe. Remexemo-nos na cadeira, ajeitamos a roupa e a posição, bocejamos repetidas vezes.
Trata-se de um filme com uma realização requintada, plena de planos artísticos e fotografia apelativa, um elenco de luxo com actuação ao melhor nível (destaco o papel secundaríssimo de Jodie Foster, que provavelmente entrou no filme apenas para mostrar o seu francês fluente) e uma produção fantástica, principalmente ao nível dos efeitos visuais e da recuperação de cenários históricos. No entanto, devido à fragilidade do argumento, não pode de todo ser considerado agradável de ver. E não nos esqueçamos de que é esse o objectivo básico do cinema!
Mais uma vez, à semelhança da amada Amélie, Audrey Tautou encarna uma personagem infantil e bizarra com tiques e manias típicas das brincadeiras de criança, sem com isso perder uma profundidade emocional invejável. Mas desta feita fá-lo de forma menos adorável, cortando um pouco a empatia que se pretendia que criasse com o público. Torna-se quase uma menina mimada...

Linhas Gerais:

Um filme excelente em todos os aspectos menos no argumento. Um belo exemplo de como o cinema está plenamente dependente da história contada.
Torna-se chato, aborrecido, quase desagradável de ver.

Filme para:

Quem anda fatigado com insónias e não encontra nenhum remédio que aparente vir a funcionar.
E para quem possa achar piada a ver a Jodie Foster a falar francês, ou a Audrey Tautou a coxear...

domingo, fevereiro 06, 2005

Finding Neverland (2004) Avaliação global: 7/10


Sinopse:

Peter Pan: a história por detrás da história. Toda a situação peculiar que levou à concepção de uma das peças mais originais e eternas de sempre.
Mais concretamente, o filme trata de relação de James Matthew Barrie com uma família especial de quatro rapazes órfãos de pai (sem nada de pouco ortodoxo, sosseguem as vossas mentes perversas!), musa na criação da peça imortal deste espantoso autor.

Crítica:

O grande interesse deste filme reside na viagem psicológica pela mente lunática de um dos grandes génios literários do século XX, particularmente pela concepção agradavelmente distorcida da realidade que se supõe que Sir Barrie possuísse.
Pretendia-se um filme alucinado, um projecto à Tim Burton que explorasse a complexidade representativa de que o magnífico Johnny Depp é capaz. O tenrinho Marc Foster mostrou-se pouco arrojado; fez um filme fácil, um filme banal, uma daquelas produções que caem nos intervalos do tempo e só são recordadas em biografias demasiado completas para serem interessantes. Este filme podia e devia ter sido muito mais.
Johnny Depp esteve bem, mas fez um papel demasiado esterilizado pela mente simplória de Marc Foster (capaz de mais e melhor) para sequer sonhar com prémios ou sucessos de maior. Digo já aqui à cabeça que se ele ganhar o Óscar a credibilidade que dou aos prémios da academia vai descer para o fundo do poço, ficando ao nível único das nomeações para ministro...
Kate Winslet desenvolveu uma representação bastante mais complexa e sem dúvida bem conseguida, mas deve ter ofendido algum membro do júri da infame academia e acabou por não ser sequer considerada para as nomeações. Neste caso é possível que tenha sido por mérito da concorrência e não por demérito do júri, faça-se justiça...
Neste filme devo realçar a qualidade da banda sonora, sempre bastante expressiva e um pouco mais arrojada que o filme em si, marcando a primeira nomeação de sempre de Jan A. P. Kaczmarek, um já comum compositor de bandas sonoras, para um Óscar.
De resto, temos uma produção bem conseguida a apontar nitidamente para os chamados "Óscares dos pobres": direcção artística, guarda-roupa e edição.

Linhas Gerais:

Um filme razoável quando podia ter sido fabuloso: devia ter sido realizado por Tim Burton, que certamente o levaria para outro nível.
Representação de qualidade a nível geral, produção competente, todos os alicerces para a criação de um bom filme. Só faltou aquele toque de magia que quase nos transporta para dentro da tela.

Filme para:

Quem se quer distrair um bocado e ver um filmezinho fácil, não abusando das já esgotadas células cinzentas.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Melinda and Melinda (2004) Avaliação global: 6/10


Sinopse:

Um encontro amigável de realizadores de cinema leva a uma conversa filosófica acerca da essência da existência humana. O debate desemboca na criação de dois universos paralelos em torno da história de um personagem central: Melissa. Cómica ou trágica? Depende do ponto de vista.

Crítica:

É impossível não se aplaudir uma ideia tão brilhante como esta. A exploração da subjectividade presente em cada visão da vida com um filme duplo a rondar os dois estilos clássicos do grande ecrã é uma postura tão complexa como inteligente. Tenho imensa pena de que não tenha sido bem feita.
As minhas expectativas em relação a esta obra eram bastante elevadas, já que me tinham falado do regresso do velho Woody Allen, inteligente e arrojado. De facto, ao ouvir as linhas gerais do argumento pensei que este (outrora?) brilhante realizador tinha pegado numa história central objectiva e tinha construído, por meio de mera escolha de cenas, dois mundos aparentemente contrastantes em torno dela. Infelizmente não foi nada disto que fez...
O carácter dual da vida humana é retratado por meio de duas histórias absolutamente distintas, unidas apenas por um punhado de factos partilhados. Acaba por ser o simples relato de duas pessoas diferentes... Assim sendo, em vez de ser um filme inovador a retratar duas formas de olhar para uma mesma vida, revelou-se mais um filme comum acerca dos diferentes caminhos que a vida pode tomar.
Consistindo o filme em duas partes distintas (com actores, cenários e até imagem diferentes), torna-se imperativo analisar as duas histórias em separado...
A comédia romântica tem um elenco bastante aceitável com um brilho extra adicionado pela presença do incontornável Will Ferrell, num papel quase central. Apesar de ser uma realização adequada, sem o suporte da intercalação com a vertente dramática seria um filme inaceitável.
O drama amoroso tem bastante mais consistência global, atribuindo às personagens uma complexidade mais de acordo com a realidade humana, levando demasiado ao extremo a mente suicida da personagem central. Mais uma vez não seria por si só um filme satisfatório.

Linhas Gerais:

A intenção é absolutamente fantástica, mas no cinema, ao contrário do ditado, a intenção conta praticamente nada...
Um filme banal, com duas histórias paralelas que em separado são de qualidade no mínimo duvidosa.
Representação consistente e realização satisfatória. Não mais que isso.

Filme para:

Quem adora Woody Allen (não é de todo o meu caso) ou para quem não tem mais que fazer num sábado à tarde...
Evitem ir em casal.