terça-feira, janeiro 25, 2005

American Splendor (2003) Avaliação global: 8/10



Sinopse:

Biografia de Harvey Pekar, o típico americano deprimido e estagnado de classe média baixa que certo dia decidiu criar uma banda desenhada autobiográfica com o intuito de camuflar o falhanço total da sua vida.

Crítica:

Porquê fazer um filme acerca desta vida tão banal? Ficaram sem vidas extraordinárias e com impacto, não se lembraram de ninguém melhor?.. A questão é que se trata de um filme enganador, uma crónica mundana dissimulada sob um falso véu biográfico. E aí podemos encontrar a razão de grande parte da sua grandiosidade. É o relato cru e pessoal de uma vida destroçada em que o narrador contundente é o próprio protagonista ironizado.
Para além da grandiosa ideia por detrás de toda a produção, o filme acabou por ser realizado com filmagens inovadoras que nos levam para dentro do universo BD (um pouco ao estilo do clássico jogo de Mega Drive "Comix Zone"), misturando em diversas passagens o mundo real com o ilustrado - apesar de ser uma técnica tristemente perdida com o evoluir do filme, mais explorada na brilhante introdução e num monólogo quase no final.
Mais um ponto positivo é a incontornável representação de Paul Giamatti no papel da sua vida (até agora - vamos esperar pelo Sideways...), deixando a ideia de que qualquer outro actor no seu lugar trataria de assassinar totalmente este filme ímpar.

Linhas Gerais:

Uma tentativa milagrosamente bem sucedida de abrir a janela do cinema para o mundo da banda desenhada. A história de uma vida deprimida e deprimente, mais facilmente aceite neste formato adocicado pela ilustração.
Filme com qualidade e originalidade.

Filme para:

Toda a gente, excepto a meia dúzia de sortudos nascidos numa situação que lhes permite ignorar por completo as dificuldades da existência humana.
Especialmente para aqueles que em miúdos se alimentavam de banda desenhada, os que entendem a mensagem oculta nas ilustrações, por vezes mais difícil de ler que Braille.

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Closer (2004) Avaliação global: 5/10



Sinopse:

Um escritor de obituários com colesterol a entupir a veia artística (Jude Law) conhece uma atraente striper Americana (Natalie Portman) num ligeiríssimo acidente de viação. Esta vida amorosa inesperadamente iniciada é abalada por um acidente de maiores proporções, a entrada de uma fotógrafa no aparentemente estável duo amoroso.
Com a chegada de um quarto elemento à já sobrelotada relação, as coisas desintegram-se num emaranhado intolerável de traições, promiscuidade e amor...

Crítica:

Os dramas amorosos são filmes delicados e com o perigo constante de desembocarem em clichés e banalidades que aborrecem os espectadores. Este filme consegue fugir a esse triste destino, mas desenganem-se se pensam que digo isto como elogio!
Na tentativa desesperada de fugir à normalidade, a história entra num ciclo de situações que se tornam pouco credíveis para os espectadores, principalmente pela contradição evidente entre diversas acções das personagens. A partir de certa altura começamos a sentir que o objectivo exclusivo do escritor passou a ser chocar e deprimir os espectadores, cedendo com esse intuito demasiadas reviravoltas a uma história que se torna inaceitável.
O filme consiste numa representação exclusiva da vertente destrutiva e venenosa do amor. Tal como os filmes que o apresentam como algo perfeito e inabalável, este torna-se pouco relacionado com a realidade e toca menos os sentimentos do espectador. Isto sem trazer a vantajosa animação dos romances idealistas.
Passada a forte crítica ao argumento (que neste tipo de filmes acaba por ser o cerne da sua avaliação) podemos realçar as prestações brilhantes do elenco. Apesar de não trazer o melhor de Julia Roberts, sempre traz o muito bom... Clive Owen cintila em pequenas situações de plena raiva interior, confirmando a imagem que tinha deixado em "King Arthur" de ter ainda muito para dar. Natalie Portman portou-se bem e Jude Law primou, como sempre, no papel de homem frágil, romântico.
Com um argumento destes custa-me focar aspectos como a realização, a que normalmente dou tanta importância: seria como falar do belíssimo embrulho que revestia as meias brancas que recebi no Natal...
Sei que vou ouvir e ler críticas positivas a este filme, e sei que certamente haverá quem o adore, mas vai-me ser difícil engolir...

Linhas Gerais:

O que aconteceria se puséssemos um elenco de luxo a representar uma telenovela mexicana de fraca categoria? Resolveu-se esse pequeno mistério...
Um pequeno hino ao egoísmo romântico, ao carácter egocêntrico do amor! Um filme bruto, insensível e totalmente céptico.

Filme para:

Quem está a tentar desesperadamente esquecer um amor passado. Ou para os pessimistas depressivos que acham que o amor é utópico...